segunda-feira, 7 de abril de 2014

Orquestra - Partitura Nº1

Contagem infinita. São as vezes que pego nesta caneta. Nesta esferográfica, de simples concepção, não muito pesada nem muito leve. O suficiente para executar as suas técnicas de acrobata na minha mão, rodopiando de dedo para dedo executando o seu treino diário. Pergunto-me, por quanto mais tempo durará; quando secará. Quando se fartará, de mim e dos meus agoiros. Dos velórios que dou às frases quando elas me traem. Pergunto-me, quando estancará a nascente desta água vermelha que me mancha as folhas. Pergunto-me, se algum dia vai coagular. Se algum dia vou coagular.


- És tão sensual.
- Diz?
- A dançar, aqui comigo. És tão sensual. Mas vamos parar por aqui… Não estou a conseguir.
- Não estás a conseguir?
- Conter-me.


A ideologia reside na capacidade de explicar as misteriosas vibrações no peito. Em gravar as ténues imagens que nos invadem o cérebro, quando o corpo desliga a sua rede electrificada.
A promessa seria que a partir da promessa, seríamos imunes à febre. Ao súbito descontrolo hormonal. Que seríamos adultos o suficiente ao ponto de saber evitar os olhos. À fervura paralisante que o peito tende em libertar até às mãos e lábios. Morfina alucinógena.
(..)

segunda-feira, 31 de março de 2014

High Rated.


          Sabes ao que sentes? Àquele golo de ar seco que dás quando sentes que vais cair; quando o carro onde estás arranca tão rápido, que nem o teu próprio corpo consegue acompanhar esse brusco movimento. Essa ofusca tentação que te dá vontade de agarrar no coração e, massajá-lo para que se acalme. Tenho-te num patamar, onde nem os segredos mais secretos chegam a dormir.

          Onde não anoitece sem que me despeça de ti com um beijo na testa, como se esse ritual fosse apenas mais um segundo investido na minha serenidade. És-me isto…. Calma. És-me dias solarengos em pleno Inverno, és-me cada estrela no meu céu. És-me o que eu quero que tu sejas, essa história de começo inesperado onde te procuro e te encontro no mesmo lugar onde te conheci.

          E eu conheço-te onde me encontro. Onde me encontro a entrar-te. Onde nos encontro. Só peço à minha natureza, que não me mude. Que me mantenha nesta selva de tornados primaveris que me aquecem os pés. As pernas. A cintura. A barriga. O peito. Os braços. As mãos.

          Tenho-te num ponto onde nem eu próprio chegaria; tão alto, que me faz cócegas nos pés com vertigens. Olho para ti assim, de queixo subido e olhos cintilantes só porque numa certa altura na nossa a vida acontecem-nos as chegadas inesperadas. As cortesias pedidas. Os cúmplices olhares e os beijos quentes. As mãos… O entrelaçar de dedos que te gela cada centímetro de pele, como se fossemos apenas marionetas de madeira a seguir um guião. É nesse momento que sinto que mais importante que a temperatura é o súbito metamorfismo que me fazes sentir… De ser nenhum passei a ser alguém. Alguém que se habituou a gelar-te as mãos. A aquecer-te a alma. A manter-te vivo. Respiro-te.

          Não faço a mínima das ideias, porque nos deram quatro estações. Para mim só existe uma e é aquela em que as pessoas… Bem, é aquela em que nos sentimos quentes. Ofegantes. Impertinentes por não compreendermos porque é que o resto do mundo, não possa também funcionar assim. Penso que lhe falta mimos. Tive uma ideia: Que achas, se o mimássemos um bocadinho? Não tenhas receio; dá-me as mãos. Basta tirarmos uma luz desta nossa constelação, e emprestá-la ao resto do céu. Partilhemos o nosso, para que tudo o resto, ou todo o resto, possa também brilhar com a nossa estação. Emprestada, claro!

… Aceitas que eu te mime?

          Ao dizer-te que sim cairia na vulgaridade, arrisco um… Preciso que me mimes. Tocar-te é tocar em veludo. Perco-me cada vez que o faço. Deixo-me levar pela ingenuidade e, como uma criança a tocar numa tomada, toco-te… com aquele ar de inocência atrevida, aquela hesitação que nos faz ansiar o preciso momento em que, pele com pele, se fará magia. Debaixo de um céu estrelado, num Inverno aquecido pelo teu abraço. Fazes-me querer que me mimes. Que me guardes dos meus males. Que me protejas contra o remoinho que por vezes, nasce cá dentro. Que previnas que ele nasça. Que o elimines, para sempre. Que para sempre me fizesses sentir alguém, que ninguém se faz sentir. Que te implantasses em mim, com a tua impressão digital. Planta-me nos pulmões a semente do teu cheiro. Cuida dela e rega-a todos os dias, sem falta. Quando ela crescer, quero um filtro capaz de inalar e exalar a tua qualidade inconfundível. Apaixonar-me todos os dias? Não. Andar apaixonado.


          Deixo pendente a minha vida para que te possa encontrar. Em cada impressão digital tua rever o meu nome em traços pouco perceptíveis. Olhar para ti e ver-me difundida na tua íris. Não é o que queremos?! Eu quero a tua presença em mim como se tivesses nascido comigo. Procuro na minha infância, que nunca te conheceu, uma réstia de esperança e apenas encontro o anseio de te ter tido desde sempre… Podemos nascer de novo? Junta o teu vermelho com o meu. As tuas penas d’Ouro com as minhas. Os teus olhos flamejantes, com os meus. O teu corpo? Abafa-o no meu. Dá-me a tua asa direita que eu dou-te a minha esquerda. Agora fecha os olhos, abre o coração e inspira fundo. Não tenhas medo, minha pequena. “If you’re a bird, I’m a bird”. Somos Fénix.

Voamos?

          Pintemos o céu em tons pastel, grafemos o nosso nome e atiremos as memórias ao ar. Que ato mais genuíno nos fará sorrir da nossa loucura? Somos asas perdidas lá no alto, que numa simbiose autêntica tentam imitar a felicidade, sem saberem que na sua simplicidade são realmente felizes. Sorrio só de te ler. Mas até quando os dedos no lugar das aventuras? Quero poder aventurar-me ao teu lado, de olhos fechados saber o rumo que percorres. Seguir-te em cada trilho, decorar-te a cada passo. Sentir-te por perto. Voa para cá.

          Entretanto, vou já acendendo a lareira. Voa para o meu colo. Preciso mais do teu calor do que mero fogo. Do teu desafogo, é o que preciso. Que contradigas a minha vontade de te respirar pura, que de vez em quando me sufoques com a tua imensidão ilusionista, minha pianista de teclas de marfim, onde em mim tocas. Realista da minha extensa lista de sabores, e cores. Amores, surfista do meu rio encarnado. Alpinista das dores do meu muro de gelo, gelado, azulado. Sinceramente? Nasci no pólo errado.

          E é nesta melodia em que me encontro perdida, neste enredo de rimas que versas sobre os teus joelhos. Vem para cá. Traz-me um pouco dessa genialidade sem te esqueceres de trazeres contigo o carinho e o mimo de que preciso. Traz-te a ti, de corpo e alma. Aquece-me, com palavras e gestos… só porque um coração quente é nada quando ao lado dele não te encontra. Eu quero-te. Construir aqui, onde os sentimentos moram, algo bonito. Alertemos para a urgência desta necessidade que nos envolve em palavras, enquanto as acções são idealizadas no mais bonito dos meus sonhos… tu.
         

          Ai, tu… Tu que me dás graça quando acordas despenteada, ou pelo menos, como eu imagino que darás. Só com a minha T-shirt a tapar-te o tronco, até ao limite das tuas coxas. Dá uma voltinha, por mim. Não tiro este braço debaixo da cabeça, encostada à tua almofada, até que o faças. Isso… Agora sim, podes voltar para aqui. Se quiseres podes até dormir mais um bocado, eu faço-te o pequeno-almoço. E o almoço. E o lanche o jantar.


Ahm… Só mais uma coisa, antes de me vestir: Podes só abrir um espaço no teu armário? Afinal, mudo-me para cá.




Só porque escrever é magia.
Só porque és mágica,
Fénix.

Escrito em parceria com Liliana Malainho.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Riscos.





Ela entra em casa, sente o aroma,
Sabe que lá estiveste e sente o sintoma;

O hematoma no coração, aperta-o com frustração,
Porque é que lá estiveste sem lhe dizeres a razão?

“Esquecer e seguir em frente.” Tu fizeste mas ela não,
Embrulhou-se no teu cheiro e agora relembra a tentação;

A indignação de a teres deixado, e agora voltado;
Arrependida de não te ter espancado… tu que fingiste ter amado.

A culpa é tua, marcaste-lhe o corpo; a alma; a pele,
E ainda insatisfeito ainda lhe escreves um papel…

Ela leu mas não ligou, interpretou como lixo,
Deitou-se, mas não aguentou, levantou-se e foi ao lixo.

Fixou, paralisou, quando leu o teu capricho,
Admirou-se com o teu humanismo apesar de seres um bicho.


Mas não, não soltou qualquer lágrima, longe disso,
A mulher é forte e o seu forte é nem sequer pensar nisso.

domingo, 23 de março de 2014

Here.

O relógio apita; são 7h da manhã.

Esta manhã.
Desta inquietante manhã, fresca. 
Esta brisa gélida que me enruga os dedos e que me irrita a garganta. A pele. Os ossos. Os olhos. O peito. Esta brisa gélida gelada de ninguém, gelada de alguém. De cem encontros, de cem mesas e de cem cadeiras, sem ninguém. De cem jarras mas, sem rosas. Sem água cristalizada e tratada como o céu que por cima de nós acorda.

Como eu gostava que assim acordasses. Com um braço e uma perna em cima de mim. Com os cabelos a fazerem-me comichão no queixo. Como eu gostava de te ver… só com uma t-shirt minha.
Diz alguma coisa. Grita com toda a tua força e deixa que o vento te traga até aqui. Deixa-me sentar-te na cadeira vazia. Não, deixa-me sentar-te na mesa em cima deste caderno. Jogar a caneta ao chão e com as minhas duas mãos, fazer pressão nas tuas cochas. Quero a tua impressão corporal nestas folhas. Não, quero-a nas minhas mãos. Que desenrugues os dedos e confortes a garganta. A pele. Os ossos. Os olhos. O peito. O meu peito.

Desculpa, não te conheço e está a ficar frio.


Vou voltar para dentro. Adeus.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Prettyounglady.


Esgoto-me toda a vez, que não te encontro.
És fora da lucidez mas é fora da lucidez que te gosto, e pronto.

Procuro-te onde me imagino estar, e é lá que te acho,
A caminho da luz Solar onde o caminho é pouco baixo.

Onde eu me encaixo, com os braços na tua cintura,
Cabeça na barriga para adormecer sem postura.

És quem mais dura, quem mais conheço,
Quem melhor conheço de formosura e quem mais leio, e não me esqueço.

Por quem amanheço, virado para o Sol atrás da colina,
Por quem adormeço sem saber da Lua na neblina.


Minha menina… como eu te gosto.
Como eu aposto que só a mim te encostas,
Como eu desgosto quando em mim não apostas.

Minha menina… 
Como eu gosto quando te abraças às minhas costas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Veste-te, de ti.

A imensidão é imensa. Imensidade de uma dispensa que esvazia ao som do tique-taque, do relógio. De uma promessa de que se encheria, se completaria por quem me batesse à porta. Não qualquer quem mas o quem que melhor me fizesse, sentir bem. Sentir que também faz bem, ter vontade de preencher todas as prateleiras, desta minúscula dispensa. Sentir que ninguém é o quem que mais desejas, mais almejas ter.
Quero que me batas à porta. Que me dês a vontade de pegar na caneta, ou meter as mãos em cima deste teclado e sentir as teclas a serem pressionadas. A serem impressionadas, pela imensidão e o peso emocional que estes dedos carregam. Que esta pele respira.


Quero imenso ter-te como penso, desconhecida vida.

Quero saber da minha particularidade, em relação ao mundo. Desejo interiormente que todas as experiências sejam mais do que apenas sensoriais, neste meu ser particular. Neste meu ser único. Apela e agrada ao mais íntimo de mim ser consciente de como sou usado e ensinado a respirar, neste oxigénio. Talvez o pensar desta forma, particular, me ajude a solidificar a opinião com princípios básicos que recorrem a uma marionete biológica. Como se fossemos meros bonecos numa mesa de matraquilhos, ensinados a respirar. Chutamos a bola porque é esse o nosso instinto, fomos ensinados a repelir o perigo. Foi-nos esculturado o intuito de querer ganhar sempre, de ser até superior ao próximo, ao ser vivo da nossa própria espécie.
Debaixo do nosso tecto podemos ser quem somos. Mas o padrão, é sempre o mesmo. É sempre o mesmo, embora pensemos que somos todos seres únicos. Sujeitos únicos. Mas, o padrão é sempre o mesmo. É próprio de uma marionete. É uma particularidade.

Serei eu tão singular quanto a minha mais ínfima particularidade?