sábado, 26 de março de 2016

Mofo.


Ardem, no vazio, chamas monocromáticas. Labaredas geladas que transcendem o seu próprio espaço. Sinto-me como o hall de entrada de uma casa despida no coração da cidade. Doem-me as paredes, e as portas. Doem-me as maçanetas semibrancas, manchadas com a saudade do suor de quem as segurava. 
Dói-me o sangue. 
Sinto arrepios nas cortinas por cada passada larga que dão lá fora, na calçada. Ninguém chega a espreitar e, por cada alma tentada a janela é trancada. Não é que tema em ser hospitaleiro mas o que vem primeiro é o cheiro, e a minha mente tresanda a mofo.
De luz apagada, respiro.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Náuseas.

As probabilidades são muitas de sermos muitos a querer ser poucos. São demasiados os loucos demasiado loucos a quererem ser poucos no meio de um muito pouco. Ou de quase nada.

Mágoa. Magoa quando ecoa ou só ecoa quando magoa?

Estou internado em mim próprio. Aparentemente, quis ser vadio de uma sanidade que só existe planeada. E aqui, a realidade não se acrescenta à realidade. 
Até o bafo no cigarro, é teatral. Dá-me náuseas, a chama do isqueiro. 
Dão-me um novo a cada duas semanas, mas… eu nunca quis um novo. Assim como os lençóis; trocam-mos a cada dois dias.
Trocam-me a cada dois dias. Como se as pilhas que me embalam durante a noite não aguentassem um sonho teu… ou um sonho meu.

O meu corpo é um hospício. Sinto indícios de dependência de coerência. 
Não me oiço. Perco o controlo a cada golo de rimas que dou em seco. A caneta é de ocasião e o caderno, extrínseco. Não me enchem a chávena e o número de colheres, é incorrecto. Aqui tudo tem medida, até a vida.
Também não tenho secretária. Se a tivesse, seria para te imaginar nela, debruçada a apoiar o canto esquerdo dos lábios na manga da camisola que tantas vezes, inconscientemente, agarras com os dedos.

Serei louco por parecer louco?

A cantina está cheia. Sou sempre um dos últimos a chegar e um dos primeiros a ter a comida fria. Tenho sempre lugar ao pé da janela, até hoje ainda ninguém se atreveu a sentar-se lá. Aqui o ambiente é agradável, sempre foi. Ninguém fala com ninguém e o único ruído é o dos talheres a rasparem os pratos. 
Aqui, ninguém grita.




Saber-te é muito pouco,
Para um tanto que já foi meu;
Sem caneta, sou apenas um rouco
Que ficou louco.
Que não gritou que era teu.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Lies.




Pronuncia,
Mas em demasia nos pulmões,
A demasia de emoções
Que te servem de guia.
De noite a dia,
De Lua a Lua.
Faz valer a cria
Que o teu Sol meteu na Rua.

Paradoxos,
Nesses remorsos que dizem ter.
Desconheces são as preces
Que à noite dizem fazer.
Poços de ideologias,
Cheias de alergias e manias;
Levam dias a beber chá e a falar como tias,
Com as tias.

Que dirias,
Se te perguntassem quem querias?
Escolhias as mais calminhas, certo?
Claro... mentias.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cortina de Fumo.


Deixar-te-ia desconfortável se confortavelmente me encostasse a ti?

Estou entediado e chateado, até no puf me sinto fora de sítio. Já vou no 3º cigarro e continuo a não conseguir decifrar esta chuva. Gotas atrás de gota vão-me salpicando os ténis, cordão a cordão. De vez em quando resmunga o vento, projectando as cujas encharcando-me a cara. E eu, resmungo-lhe de volta.
Sinto-me sem jeito. Desconfortável. Tenho o cérebro tão enleado como os nós de cabelos presos no ralo da banheira. Não sou de fases mas esta tira-me a vontade de me passar a ferro; de me compor. De me recompor. De dispor de boa disposição para me pôr direito. Correcto, no caminho certo. Em linha recta nas linhas férreas, como costuma ser habitual. Actualmente a tranquilidade é incerta. A vontade é inerte.

Levanto-me. 
Olho para trás e ali estás tu, sentado no puf. 
Que sensação estranha... Fui eu que já cá estive ou foste tu que já cá estiveste? Não sei se já reparaste, mas, o cigarro derreteu. Estranho... Verte fumos que te embaciam a alma. Sabores que a deixam calma enquanto a névoa.
Tenho a saliva embriagada com sabor a tabaco, no entanto nunca fumei. 

...Deixar-te-ia desconfortável se confortavelmente te perguntasse quem és?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Thunderbird.


Não é à pressa que cresces, nem são as preces que te tornam adulto. És e continuarás a ser um vulto até aprenderes a tomar conta dos teus próprios ossos. Imaginas-te em tons sépia quando te dizem que o arco-íris, afinal, é um fenómeno da natureza e não dos que mais amas. Reclamas e dizes que olhas para o mundo à tua maneira, excepto quando está nublado.
Somos filhos dos relâmpagos, crescemos com os furacões e não com o sapato perdido pela Cinderela. É como querer ter um barco à vela e nunca ter içado uma vela, sequer. Não olhes para as estrelas. Olha para o céu escuro, cinzento, carregado de nuvens encharcadas. Aceita que te acompanhem. Aceita-te acompanhado. 

Imagina uma vitamina que só germina quando, uma mão feminina a ensina o quanto, é relevante escolher a pessoa certa enquanto, vives debaixo de um manto com a cabeça incerta, com a pessoa incerta, numa relação pouco ou nada correcta. Porque quem faz a nós desperta, a curiosidade de uma ação concreta repleta de uma vontade que mais tarde, se torna em necessidade. Mas a verdade, é que procuramos a mentira no meio da verdade. Somos escravos de uns filhos que nasceram sem uma metade da cara, ou com a cara pela metade.
Somos filhos dos relâmpagos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Off.

Não me avalies. Eu não sou o que esperas. Ou por quem esperas. Não sou uma mera melancolia com aroma a girassol, não giro em prole de algo estável e se eu estiver a mentir, então, que alguém me esfole. No protocolo dos meus genes não existe auto-controlo.

Os níveis de apatia estão absurdamente altíssimos, elevados ao cubo. Têm tido mais influência na saliência da minha gordura sentimental, do que a minha experiência em tornar em demência o meu comportamento social. O que antes era casual, tornou-se agora em banal. Desinteressante. É viciante e o que antes era assustador, agora, é acolhedor; como mergulhar nu, à noite, na praia.





03:11h da madrugada. Aumentei a velocidade da ventoinha e reposicionei-a para o Rex. Sinto o lombo dele a ferver, através dos meus pés. Até o punha lá fora ao fresco mas passa sempre a noite em branco a tentar morder os mosquitos. Aqui, pode sonhar à vontade.
"Dormir? Sim, consigo." Digo, mal a paz enlouquece. Se alguém esquece alguém é porque aprendeu a ser ninguém. Ou tudo. Se consigo ser ninguém porque não haveria de conseguir dormir? "Sim, consigo." 
Digo, infiel ao meu stress nocturno.