quarta-feira, 2 de março de 2016

Lies.




Pronuncia,
Mas em demasia nos pulmões,
A demasia de emoções
Que te servem de guia.
De noite a dia,
De Lua a Lua.
Faz valer a cria
Que o teu Sol meteu na Rua.

Paradoxos,
Nesses remorsos que dizem ter.
Desconheces são as preces
Que à noite dizem fazer.
Poços de ideologias,
Cheias de alergias e manias;
Levam dias a beber chá e a falar como tias,
Com as tias.

Que dirias,
Se te perguntassem quem querias?
Escolhias as mais calminhas, certo?
Claro... mentias.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cortina de Fumo.


Deixar-te-ia desconfortável se confortavelmente me encostasse a ti?

Estou entediado e chateado, até no puf me sinto fora de sítio. Já vou no 3º cigarro e continuo a não conseguir decifrar esta chuva. Gotas atrás de gota vão-me salpicando os ténis, cordão a cordão. De vez em quando resmunga o vento, projectando as cujas encharcando-me a cara. E eu, resmungo-lhe de volta.
Sinto-me sem jeito. Desconfortável. Tenho o cérebro tão enleado como os nós de cabelos presos no ralo da banheira. Não sou de fases mas esta tira-me a vontade de me passar a ferro; de me compor. De me recompor. De dispor de boa disposição para me pôr direito. Correcto, no caminho certo. Em linha recta nas linhas férreas, como costuma ser habitual. Actualmente a tranquilidade é incerta. A vontade é inerte.

Levanto-me. 
Olho para trás e ali estás tu, sentado no puf. 
Que sensação estranha... Fui eu que já cá estive ou foste tu que já cá estiveste? Não sei se já reparaste, mas, o cigarro derreteu. Estranho... Verte fumos que te embaciam a alma. Sabores que a deixam calma enquanto a névoa.
Tenho a saliva embriagada com sabor a tabaco, no entanto nunca fumei. 

...Deixar-te-ia desconfortável se confortavelmente te perguntasse quem és?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Thunderbird.


Não é à pressa que cresces, nem são as preces que te tornam adulto. És e continuarás a ser um vulto até aprenderes a tomar conta dos teus próprios ossos. Imaginas-te em tons sépia quando te dizem que o arco-íris, afinal, é um fenómeno da natureza e não dos que mais amas. Reclamas e dizes que olhas para o mundo à tua maneira, excepto quando está nublado.
Somos filhos dos relâmpagos, crescemos com os furacões e não com o sapato perdido pela Cinderela. É como querer ter um barco à vela e nunca ter içado uma vela, sequer. Não olhes para as estrelas. Olha para o céu escuro, cinzento, carregado de nuvens encharcadas. Aceita que te acompanhem. Aceita-te acompanhado. 

Imagina uma vitamina que só germina quando, uma mão feminina a ensina o quanto, é relevante escolher a pessoa certa enquanto, vives debaixo de um manto com a cabeça incerta, com a pessoa incerta, numa relação pouco ou nada correcta. Porque quem faz a nós desperta, a curiosidade de uma ação concreta repleta de uma vontade que mais tarde, se torna em necessidade. Mas a verdade, é que procuramos a mentira no meio da verdade. Somos escravos de uns filhos que nasceram sem uma metade da cara, ou com a cara pela metade.
Somos filhos dos relâmpagos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Off.

Não me avalies. Eu não sou o que esperas. Ou por quem esperas. Não sou uma mera melancolia com aroma a girassol, não giro em prole de algo estável e se eu estiver a mentir, então, que alguém me esfole. No protocolo dos meus genes não existe auto-controlo.

Os níveis de apatia estão absurdamente altíssimos, elevados ao cubo. Têm tido mais influência na saliência da minha gordura sentimental, do que a minha experiência em tornar em demência o meu comportamento social. O que antes era casual, tornou-se agora em banal. Desinteressante. É viciante e o que antes era assustador, agora, é acolhedor; como mergulhar nu, à noite, na praia.





03:11h da madrugada. Aumentei a velocidade da ventoinha e reposicionei-a para o Rex. Sinto o lombo dele a ferver, através dos meus pés. Até o punha lá fora ao fresco mas passa sempre a noite em branco a tentar morder os mosquitos. Aqui, pode sonhar à vontade.
"Dormir? Sim, consigo." Digo, mal a paz enlouquece. Se alguém esquece alguém é porque aprendeu a ser ninguém. Ou tudo. Se consigo ser ninguém porque não haveria de conseguir dormir? "Sim, consigo." 
Digo, infiel ao meu stress nocturno.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Invólucro.


- Não tenho tempo para nostalgias! – Prefiro achar que não tenho tempo do que ter tempo para achar que o tenho. Não te desenho numa tela porque não tenho tempo para tal… Mas quero que saibas que, se o tivesse não te desenharia na mesma. A minha habilidade para tal é péssima ou quase nula, e mesmo que eu fosse o melhor artista à face do planeta, não te desenharia na mesma.


Sou filho de uma herança indígena, pouco dada a manhãs alegres. Passadas duas décadas não posso dizer que encontrei o meu lugar. E de facto ainda não o encontrei, de todo.
Sabe-me a pouco quando as pálpebras descem, nunca foram de boa voz e o seu conforto é longe do ortopédico. Não me aconchega os olhos e o peito muito menos. A pulsação é abaixo dos 49 por minuto e o bocejo, vem de semana a semana. Isto é tão característico que a falta de semântica provoca-me apatia torácica. Ou uma espécie de amígdala sentimental. Tenho o sono mudo, não lhe ouço a aflição. É tudo um sonho morno e eu não adormeço sem uma ejaculação. Pernoito num mundo ficcional, rodeado de asmáticos por novelas e nenhuma delas tem um intervalo estipulado. Uns viciados sem a simbiose com o pecado. Já eu, sou de mim próprio: o Padre de mim mórbido e o Diabo de mim sóbrio.

Eu sinto o ambiente diferente. Estou habituado a chegar a casa e a ouvir vozes de outras pessoas a falarem línguas estrangeiras. É sinal que o meu pai cumpre a sua rotina nocturna, fixado nos filmes de guerra que preenchem as madrugadas na televisão. Quem o acompanha nessas viagens cinemáticas é o Rex, na maioria das vezes de olhos fechados e com o focinho em cima da coxa do meu velhote. Sempre achei ser dono dele, mas na verdade é mais do meu pai do que alguma vez foi meu.
Adiante, adiante!

Para crescer, precisei de encontrar sossego no desassossego dos meus suores. Comecei por: à luz do dia, morder o lábio inferior e a estalar os dedos das mãos, numa tentativa de continuar a estar ciente sobre o que significa ser sóbrio. Mas os dias tornam-se mais curtos, aparentemente. Dou por mim no quarto a coçar os braços, com a televisão ligada mas estagnada no Jornal da Noite. O noticiário dura cada vez menos, aparentemente. Nunca gostei de muita luz mas não me atrevo a roubar a voz ao meu corpo. Contento-me com a luz do relógio-despertador, que por acaso hoje é só relógio. Contento-me com o barulho de nada a desmanchar-me os cortinados. Contento-me com o arrepio gelado no pescoço, e nos nós dos dedos dos pés.
Contento-me e peço por mais, até.

Para crescer, precisei de estar de olhos abertos durante o pesadelo. De saber quantos dedos tinham as mãos do demónio que desaconchegava e adulterava os meus sonhos. Para crescer, precisei de me sentar na cama durante a madrugada no meio da escuridão e, suster a respiração. Para crescer, foi preciso a luz do candeeiro se fundir quando o liguei às quatro horas da madrugada, encharcado em suor e medo.




Sim, é. Sou de mim próprio..

quinta-feira, 5 de março de 2015

Capítulo 3.


Em mim, semeias milhões e nem de um terço desses milhões, te apercebes que semeias. Metade deles agitam-se, ao ver-te ficar só de meias quando chegas a casa. Deixas as botas à porta e a Nicole nem nota na porta aberta, esquecida por ti. Toda torta corre em direção às tuas pernas e obriga-te a ficar sentada, no tapete da entrada da frente. É tão inocente que embora já agarrada a ti, continua a chamar pela mãe, vez atrás de vez. São as saudades de apenas umas horas sem te ver, e eu, deliciado, encostado ao corrimão das escadas, vou sonhando acordado:

...E rasga-lhe o pijama que tinha vestido, como se de um mero guardanapo se tratasse. Espantada, inspirou fundo e encolheu os ombros como se tivesse sentido um arrepio (E arrepio tinha eu sentido quando a vi de lingerie!). Jogou-se ao seu pescoço como se de uma presa se tratasse, mas com a gentileza de alguém que acabara de pegar num bebé ao colo. Suave e bem, bem devagarinho. Sentiu a pele de galinha e o queixo dela a elevar-se no alto; cabeça para trás e as suas unhas, a despentearem-lhe a alma. Ouviu-a novamente a inspirar fundo mas desta vez com ainda mais ênfase, ainda mais descontrolada. 
Aí soube, que não ia dormir tão cedo.