segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Aorta.



Dás e voltas a dar porque vês que o teu dar dá, está a resultar. Deixas de estar porque estar nem sempre dá, nem sempre se consegue estar. Se der, estás, e se não der voltas atrás. Perdes tempo a pensar que és forte e nos momentos chave, não és capaz. És um homem que afinal é um rapaz.
Às tantas não passas disso mesmo: de um rapaz. Às tantas és só tu e esse teu corpo. Afogados numa melancolia em tons sépia, de olhos meio fechados e peito meio aberto. Repleto de tempo livre para pensamentos aborrecidos, entediados.
Queres dar tudo mas nem tudo consegues dar, tens medo que não resulte? Não. Tens é medo que não resultes. Medo de te perder; de dar e ninguém querer receber.
Até apostava contigo, mas irias perder. Que o teu tudo já te passou pelas mãos, não é? Se ficou lá por muito tempo, então é ainda mais grave. Nas periferias da tua aura todos achariam que seria mais fácil, até, fechar as mãos e trancar esse tudo até os dedos ficarem dormentes. Mas tu sabes, assim como eu. Damos porque gostamos, porque queremos mostrar que estamos. 
Certo? Certo.



Dá, é o mais correcto.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Heavenly sweet.

Sou um escritor da treta.

Pode até parecer idiotice, mas tenho mantido a mesma caneta comigo. Desde o início, até hoje. Até agora. Por vezes falha, não vou mentir. Tem dias em que se arma em chata e decide escrever em braile, vai-se lá perceber o porquê. Mas a verdade é que tem permanecido cá, comigo, até hoje. Até agora. No entanto, não diluí a certeza de que sou um escritor da treta.
Não sei escrever. Não me sei escrever. Não te sei escrever nem nos sei escrever… Embora esteja habituado a esta espécie de ervas daninhas que me consomem a imaginação, imagino-te. Tenho-te. Sinto-me feliz por teres deixado a tua gargalhada comigo, permite-me imaginar-te. Permite-me ter-te. Permite-me permanecer o que sempre fui. Mas o mais importante: Ajuda-me a manter os pés longe daquilo a que chamo de areias movediças. De um corpo inanimado com a mente à deriva, a boiar em pensamentos esterilizados. Sentimentos monocromáticos. Esse teu sorriso desdentado obriga-me a lembrar-me a lembrar-te. A acenar-te quando entro pela porta da frente, da nossa casa mágica com quatro piscinas às cores.
Chega a uma altura das nossas vidas, em que nos dizem que temos que seguir em frente. Aprender a viver a vida e a ultrapassar os problemas. Está errado. Está tão errado como o pensar que devemos saber fazê-lo, que nos pode ser ensinado. Eu não quero saber escrever. Não te quero saber escrever e muito menos irei querer, saber escrever sobre nós. Não quero deixar de riscar e escrever ao lado, ou por cima. Não me interessam técnicas ou tão pouco referências literárias. Não me interessam ensinamentos. Não quero aprender a viver.
Chega a uma altura das nossas vidas, em que desejamos que alguém dê pela nossa falta. Está correcto. Faz-nos sentir certos quando nos procuram. Faz-nos sentir que estamos cá, presentes. Que não fazemos só parte de um livro escrito por alguém que sabe escrever. Que nos soube escrever. Já eu, não o sei. Só te sei a ti e de alguma forma, parece confortar-me. Parece agradar-me ao convencer-me que o faço de forma errada.



Queres saber uma coisa, Anna?
Eu sou um escritor da treta. Sou. Tenho que admiti-lo e nada melhor do que uma plateia de grilos para o testemunharem, a esta hora da madrugada. Tenho uma dezena de cadernos cheios de letra feia e outra meia dezena, preenchidos com poemas enfadonhos e rimas ridículas. Todos rabiscados numa tentativa impotente e desgostosa de descrever o que é a dor, e o amor. Convenço-te se te disser que és as linhas mais bonitas que um caderno pode ter? Não cores, minha pequenina. És a minha melhor memória. A minha melhor história.




1 month, darling. I'll be up there in a minute, I promise.

domingo, 17 de agosto de 2014

Boreal.



Não é espanto que dê por mim cá fora, nas madrugadas de Agosto. Que contemple no som das árvores o vento que de mim sopra. Das sobras que ficam em mim por se esquecerem de raspar o fundo. Não é espanto.
O caderno vai ficando menos branco a cada solavanco emocional. A cada minuto gasto sentado neste banco, cá fora, com as costas na diagonal. Numa espiral intemporal que me tende a fazer desaparecer, para além das árvores. Para ser franco, estou pronto para outro branco. Estou pronto para outro caderno. Estou demasiado agarrado ao velho, e isso, não é de espantar. Por mais que o tranque nunca o tranco e isso, é preocupante. Agora, é preocupante.

Sinto-me preso a tanta folha tanto que a cola nelas posta, são as minhas próprias costas. Numa balbúrdia de notas e post-its, de uma maneira ou de outra lá me vou recolhendo, lá me vou encontrando. Mas, não é espanto… é o meu próprio branco. É o meu próprio branco, recheado e sobrelotado de pedacinhos de alma. De pessoas obliteradas por lembranças cuja maioria, ficaram mal resolvidas. Estou mal resolvido.
Não é espanto, que o Agosto estranhe quando não o acompanho nas suas madrugadas. De caneta na mão a preencher folhas riscadas, ao som de ninguém. Hoje é com o nariz entupido, pouca sorte. Respiro só pela boca como se tivesse dois dedos a apertarem-me as narinas, pouca sorte. Vou buscar letras ao peito mas nem uma que vem solta, todas enleadas. Pouca sorte.

Custa-me mais olhar para o meu cão deitado na sua cama, do que para caderno. Faz sentido? Faço eu sentido quando te escrevo sem saberes? Sem sequer pensares, que é para ti? Sem sequer sonhares, que sou para ti? Não é espanto, não saberes. Mas ele sabe, o caderno sabe. Melhor que tu e até melhor que eu, atrevo-me a dizer. Sabe-nos melhor do que eu próprio alguma vez saberei. Do tanto que eu não te implorei, ou agarrei. Do tanto que eu não sei, ou te soubesse.

Ronda à volta dos 3-4 minutos. É o tempo que o vento demora até o próximo chegar. Aquele breve silêncio que faz com que as árvores pareçam mais pequenas. Aquela breve pausa que me obriga também a parar, para as respeitar.



Afinal, não somos só nós que gostamos de respirar fundo.

sábado, 5 de julho de 2014

Dark room, no cameras. - Part 1


Inquietude que me aconchega, à noite. Do outro lado da cama, um gelo de plenitude que me desaconchega os lençóis. Solitude que marca o chão do quarto, que dobra os pés da cama. Olhos vagarosos que custam encontrarem os teus. Pigmeus, pequenas tropas de suspiros envergonhados quando me respondes com carinho. Quando agarras no pergaminho e o metes à minha frente. Escreve para mim, por favor. Sabes bem que o faço porque adoro ver o traço de sorriso que vais deixando para trás, linhas após linha.
Não te sentes sozinha, sabes que me tens. Sabes que escrevo para ti de luz apagada porque a tinta, para ti, é fluorescente. Sabes que adoro estrelas cadentes e é por isso que fechas os olhos quando alguma passa. Sabes que as recolho das tuas íris e é por isso, que te desenleias para mim. Sabes, que eu gosto do teu enleio. Do desenleio.
Já eu sei bem quando te leio. Percebo quando me leio. Percebo que isto é enleio. Que não preciso de luz acesa para saber onde estás. Que não preciso de uma câmara para te rever, quando não estás.


Para isso, tenho-te aqui. Guardo-te aqui. Escrita a fluorescente nos pedacinhos de coração que me vais deixando. Para isso, tenho-te aqui. Guardada para mim. Guardada para ti. Para nós?

sábado, 21 de junho de 2014

Duo.


Sem gravidade, sem atmosfera. Nasceste fera numa esfera de emoções, numa revolta sem amanhã. E hoje? Hoje és a verdade. És a profundidade que assinala o quão baixo chegaremos, o quão fundo é o nosso fundo. 
Hoje ensinas-me que lá no fundo sou só mais ar, do que peso. Que só pertenço à gravidade. Que só faço parte da tua verdade.
Hoje ensinas-me que amanhã irei sentir-te fresca. A tua pele fria encostada à minha têmpora esquerda, e a tua palma quente na minha direita. 
Hoje, ensinas-me o amanhã. Explicas-me que de manhã, não continuarás a ser minha. Nisso, és sublime.
És como eu, um gélido apogeu apenas estimulado por arranhões e amassos. És plenitude sem atitude em demasia, quem diria. És presença, nesses traços que insistes em deixar-me na parte de dentro do peito. És passos de pés descalços em bicos de pés. És a atmosfera, ao ser o invés. O meu balanço e a minha confiança quando me deixo cair para trás, sabendo do que és capaz.


- És como eu, só um rapaz. Só rapaz.  – diz a imagem, no espelho.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pointless.



Chegas ao ponto em que o encontro contigo mesmo é medonho. És um sonho tonto com lábios de framboesa, mas sabor de medronho. Sem princesa e sozinho na mesa. Copo cheio, de mente presa. És algo sem algo, corpo de presa. Alguém que no verão espera que alguém lhe deixe, a lareira acesa. És algo sem algo.. És corpo de galgo.

Até quando vais ser aquilo que não queres ser? Quão longínqua é a tua vontade, o teu sentido de, quereres finalmente aparecer? Cheiras mas esqueceste de fechar os olhos, respiras mas, esqueceste de o fazer de olhos abertos. Respiras fundo mas não como fazias, não como sorrias. Não depois de uma gargalhada de apenas cinco segundos, que te cansa e te deixa a íris molhada. Não como agora, seca e incolor. Sem amor. Não como agora.

Deitaste fora e já não esperas que alguém te resolva, que alguém te devolva, o que jogaste ao ar. Que alguém saia das águas do mar e te dê um abraço molhado. Deitaste fora e já não esperas por ninguém. És só alguém, sem quem. Sem sem.



Até quando nesse ponto?