quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Indigência.


Doem-me as mãos. Sinto os dedos a latejar, cada osso a congelar. A caneta a petrificar. 
Aborreço-te se tocar à campainha? Bato à porta, se assim preferires. Não quero é que te aborreças, por minha causa. Que tenhas que pôr em pausa os teus desenhos animados favoritos. Os meus preferidos, durante duas semanas. Aborreço-te se te aborrecer com isto? Com as “as minhas coisas”, eu sei. Desculpa, minha pequenina. Prometo ser breve.

Tenho-me sentido leve, sabias? Tenho-me sentido bem, nesta ausência insubordinada entre o teu carinho, e o meu. Tenho pisado e saltado de nuvem para nuvem, mas, infelizmente tenho que descer quando o Sol sobe.
Hoje lembrei-me de ti. Aborreço-te? Olhei para as fotografias à tua procura e só depois é que me apercebi, que já não te tinha lá mais. Só depois, é que a minha garganta se enrolou como um nó à marinheiro. Apaguei o teu físico das minhas lembranças físicas e custa-me o mundo, saber que o fiz. Eventualmente vou esquecer o teu sorriso traquina, mas nunca do número de dentes que te faltavam. Nunca. De ti, nunca.

A madrugada vai a meio e eu já estou a mais de meio caminho, de me manter o restante meio, acordado. Enfiado nas mantas, atordoado. Agarrado à caneta a tentar que ela aqueça. Se continuar gelada, que me esquente o coração, pelo menos. Posso pedir-te que quando os bonecos acabarem, que passes pelo hall de entrada e retires as cartas do correio? As últimas que te enviei voltaram para trás. Deve-lo ter deixado chegar ao limite. Deve estar entupido.


Sinto imenso a tua falta. Sabes disso, não sabes? Espero que sim.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dark room, no cameras. Pt - II

Tenho frio.

Lembro-me do teu nome tantas vezes... Mais do que aquelas que me obrigam a dizer o meu, embora me esqueça sempre de referir o último; André, apenas. Basta? O meu subconsciente diz que sim, que não preciso de me desvendar mais, perante ninguém. Di-lo com as sílabas do teu nome penduradas ao pescoço, escritas com cor de limão, num placar fino mas enorme. Tão grande que lhe obriga a caminhar desajeitadamente, na minha direcção.

Acreditavas se te dissesse que nunca o cumprimentei? Nem um Olá ou sequer um Bom Dia. Vejo-o imensas vezes na avenida, do outro lado da estrada. Levanto o braço mas finjo que arregacei a manga; não me fala. Não nos falamos. Hoje decidiu fazê-lo, surpreendeu-me. Agarrou-me no braço, cravando as unhas na minha pele e proferiu em tom rouco:

- Agora é a tua vez de o envergares. – Disse, baixando a cabeça para que pudesse retirar o placar. – Fá-lo emblema. Passa com a caneta no rebordo de cada letra, todos os dias de manhã. Sem falhas! Lembra-te que se não o fizeres, retirar-to-ão, sem quaisquer tipos de aviso prévio.
Tremi. Senti-me como se estivesse em cima de um escadote no topo de uma montanha russa. Mordi o lábio para voltar à realidade mas, nem sequer cheguei a sair dela.
…És tu?



Tenho frio. Trouxe algumas páginas do teu caderno secreto comigo, para a varanda. Espero que não te importes. Espalhei-as em cima da cama, ao meu lado. Estou de barriga para baixo com as pernas no ar, de tornozelos cruzados. Normalmente doem-me os cotovelos nesta posição, mas hoje não. Surpreendentemente não sinto qualquer dormência, física ou psicológica. Costumo até mordiscar a ponta da caneta, mas hoje, não. Passo-a pelos lábios sem dar conta de que, pelo menos, já tenha passado os olhos pela tua caligrafia ínfimas vezes. Está escuro e só tenho o ecrã do portátil a franzir-me os olhos, mas consigo lê-la. Consigo ler-te. Consigo ter-te.

Prometi-te frases escritas a fluorescente mas acho que vou quebrar a promessa. Não aguento. Tenho toneladas de tinta pré-fabricada por ti a rebentarem-me as paredes desta fábrica vermelha, em forma de coração. Gritam por página atrás de página com números próximos dos três dígitos.
É aqui que eu me perco, por ti. Por mim, nos meus pensamentos por ti. Tenho mais de ti em mim do que aquilo que tu possas imaginar; uma manga em cada braço, tatuados, trabalhando em equipa. Um agarra no caderno, o outro escreve. Um agarra-te no queixo, o outro puxa-te na minha direcção. Um mima a tua nuca, o outro desliza na tua bochecha.


É desta que abrimos as persianas?
É desta que te sinto?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Aorta.



Dás e voltas a dar porque vês que o teu dar dá, está a resultar. Deixas de estar porque estar nem sempre dá, nem sempre se consegue estar. Se der, estás, e se não der voltas atrás. Perdes tempo a pensar que és forte e nos momentos chave, não és capaz. És um homem que afinal é um rapaz.
Às tantas não passas disso mesmo: de um rapaz. Às tantas és só tu e esse teu corpo. Afogados numa melancolia em tons sépia, de olhos meio fechados e peito meio aberto. Repleto de tempo livre para pensamentos aborrecidos, entediados.
Queres dar tudo mas nem tudo consegues dar, tens medo que não resulte? Não. Tens é medo que não resultes. Medo de te perder; de dar e ninguém querer receber.
Até apostava contigo, mas irias perder. Que o teu tudo já te passou pelas mãos, não é? Se ficou lá por muito tempo, então é ainda mais grave. Nas periferias da tua aura todos achariam que seria mais fácil, até, fechar as mãos e trancar esse tudo até os dedos ficarem dormentes. Mas tu sabes, assim como eu. Damos porque gostamos, porque queremos mostrar que estamos. 
Certo? Certo.



Dá, é o mais correcto.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Heavenly sweet.

Sou um escritor da treta.

Pode até parecer idiotice, mas tenho mantido a mesma caneta comigo. Desde o início, até hoje. Até agora. Por vezes falha, não vou mentir. Tem dias em que se arma em chata e decide escrever em braile, vai-se lá perceber o porquê. Mas a verdade é que tem permanecido cá, comigo, até hoje. Até agora. No entanto, não diluí a certeza de que sou um escritor da treta.
Não sei escrever. Não me sei escrever. Não te sei escrever nem nos sei escrever… Embora esteja habituado a esta espécie de ervas daninhas que me consomem a imaginação, imagino-te. Tenho-te. Sinto-me feliz por teres deixado a tua gargalhada comigo, permite-me imaginar-te. Permite-me ter-te. Permite-me permanecer o que sempre fui. Mas o mais importante: Ajuda-me a manter os pés longe daquilo a que chamo de areias movediças. De um corpo inanimado com a mente à deriva, a boiar em pensamentos esterilizados. Sentimentos monocromáticos. Esse teu sorriso desdentado obriga-me a lembrar-me a lembrar-te. A acenar-te quando entro pela porta da frente, da nossa casa mágica com quatro piscinas às cores.
Chega a uma altura das nossas vidas, em que nos dizem que temos que seguir em frente. Aprender a viver a vida e a ultrapassar os problemas. Está errado. Está tão errado como o pensar que devemos saber fazê-lo, que nos pode ser ensinado. Eu não quero saber escrever. Não te quero saber escrever e muito menos irei querer, saber escrever sobre nós. Não quero deixar de riscar e escrever ao lado, ou por cima. Não me interessam técnicas ou tão pouco referências literárias. Não me interessam ensinamentos. Não quero aprender a viver.
Chega a uma altura das nossas vidas, em que desejamos que alguém dê pela nossa falta. Está correcto. Faz-nos sentir certos quando nos procuram. Faz-nos sentir que estamos cá, presentes. Que não fazemos só parte de um livro escrito por alguém que sabe escrever. Que nos soube escrever. Já eu, não o sei. Só te sei a ti e de alguma forma, parece confortar-me. Parece agradar-me ao convencer-me que o faço de forma errada.



Queres saber uma coisa, Anna?
Eu sou um escritor da treta. Sou. Tenho que admiti-lo e nada melhor do que uma plateia de grilos para o testemunharem, a esta hora da madrugada. Tenho uma dezena de cadernos cheios de letra feia e outra meia dezena, preenchidos com poemas enfadonhos e rimas ridículas. Todos rabiscados numa tentativa impotente e desgostosa de descrever o que é a dor, e o amor. Convenço-te se te disser que és as linhas mais bonitas que um caderno pode ter? Não cores, minha pequenina. És a minha melhor memória. A minha melhor história.




1 month, darling. I'll be up there in a minute, I promise.

domingo, 17 de agosto de 2014

Boreal.



Não é espanto que dê por mim cá fora, nas madrugadas de Agosto. Que contemple no som das árvores o vento que de mim sopra. Das sobras que ficam em mim por se esquecerem de raspar o fundo. Não é espanto.
O caderno vai ficando menos branco a cada solavanco emocional. A cada minuto gasto sentado neste banco, cá fora, com as costas na diagonal. Numa espiral intemporal que me tende a fazer desaparecer, para além das árvores. Para ser franco, estou pronto para outro branco. Estou pronto para outro caderno. Estou demasiado agarrado ao velho, e isso, não é de espantar. Por mais que o tranque nunca o tranco e isso, é preocupante. Agora, é preocupante.

Sinto-me preso a tanta folha tanto que a cola nelas posta, são as minhas próprias costas. Numa balbúrdia de notas e post-its, de uma maneira ou de outra lá me vou recolhendo, lá me vou encontrando. Mas, não é espanto… é o meu próprio branco. É o meu próprio branco, recheado e sobrelotado de pedacinhos de alma. De pessoas obliteradas por lembranças cuja maioria, ficaram mal resolvidas. Estou mal resolvido.
Não é espanto, que o Agosto estranhe quando não o acompanho nas suas madrugadas. De caneta na mão a preencher folhas riscadas, ao som de ninguém. Hoje é com o nariz entupido, pouca sorte. Respiro só pela boca como se tivesse dois dedos a apertarem-me as narinas, pouca sorte. Vou buscar letras ao peito mas nem uma que vem solta, todas enleadas. Pouca sorte.

Custa-me mais olhar para o meu cão deitado na sua cama, do que para caderno. Faz sentido? Faço eu sentido quando te escrevo sem saberes? Sem sequer pensares, que é para ti? Sem sequer sonhares, que sou para ti? Não é espanto, não saberes. Mas ele sabe, o caderno sabe. Melhor que tu e até melhor que eu, atrevo-me a dizer. Sabe-nos melhor do que eu próprio alguma vez saberei. Do tanto que eu não te implorei, ou agarrei. Do tanto que eu não sei, ou te soubesse.

Ronda à volta dos 3-4 minutos. É o tempo que o vento demora até o próximo chegar. Aquele breve silêncio que faz com que as árvores pareçam mais pequenas. Aquela breve pausa que me obriga também a parar, para as respeitar.



Afinal, não somos só nós que gostamos de respirar fundo.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Raincoats.



Gosto tanto que já não é espanto, quando me atinges. Quando me tinges de púrpura ao deixares de sentir os lábios. Com tons em azul, azulados de alguém. Vincados e amarrotados por um ferro sem dono, sem ninguém. Não é espanto ver-te assim, quando de mim esperas a ânsia que te cessa os tremelicos de cor violeta.

Ligasse eu à distância, à preponderância de te saber imprimir a cores. À melancolia de não te galar e dizer que sabes melhor que sabores. Não me regenerasses tu o quente, na presença de frios mórbidos. De suores sem tópico, de beijos sem óbitos. Não me esperasses tu à chuva, sem gabardine e com o cabelo a pingar.



Não é espanto. É encanto.

sábado, 5 de julho de 2014

Dark room, no cameras. - Part 1


Inquietude que me aconchega, à noite. Do outro lado da cama, um gelo de plenitude que me desaconchega os lençóis. Solitude que marca o chão do quarto, que dobra os pés da cama. Olhos vagarosos que custam encontrarem os teus. Pigmeus, pequenas tropas de suspiros envergonhados quando me respondes com carinho. Quando agarras no pergaminho e o metes à minha frente. Escreve para mim, por favor. Sabes bem que o faço porque adoro ver o traço de sorriso que vais deixando para trás, linhas após linha.
Não te sentes sozinha, sabes que me tens. Sabes que escrevo para ti de luz apagada porque a tinta, para ti, é fluorescente. Sabes que adoro estrelas cadentes e é por isso que fechas os olhos quando alguma passa. Sabes que as recolho das tuas íris e é por isso, que te desenleias para mim. Sabes, que eu gosto do teu enleio. Do desenleio.
Já eu sei bem quando te leio. Percebo quando me leio. Percebo que isto é enleio. Que não preciso de luz acesa para saber onde estás. Que não preciso de uma câmara para te rever, quando não estás.


Para isso, tenho-te aqui. Guardo-te aqui. Escrita a fluorescente nos pedacinhos de coração que me vais deixando. Para isso, tenho-te aqui. Guardada para mim. Guardada para ti. Para nós?

sábado, 21 de junho de 2014

Duo.


Sem gravidade, sem atmosfera. Nasceste fera numa esfera de emoções, numa revolta sem amanhã. E hoje? Hoje és a verdade. És a profundidade que assinala o quão baixo chegaremos, o quão fundo é o nosso fundo. 
Hoje ensinas-me que lá no fundo sou só mais ar, do que peso. Que só pertenço à gravidade. Que só faço parte da tua verdade.
Hoje ensinas-me que amanhã irei sentir-te fresca. A tua pele fria encostada à minha têmpora esquerda, e a tua palma quente na minha direita. 
Hoje, ensinas-me o amanhã. Explicas-me que de manhã, não continuarás a ser minha. Nisso, és sublime.
És como eu, um gélido apogeu apenas estimulado por arranhões e amassos. És plenitude sem atitude em demasia, quem diria. És presença, nesses traços que insistes em deixar-me na parte de dentro do peito. És passos de pés descalços em bicos de pés. És a atmosfera, ao ser o invés. O meu balanço e a minha confiança quando me deixo cair para trás, sabendo do que és capaz.


- És como eu, só um rapaz. Só rapaz.  – diz a imagem, no espelho.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pointless.



Chegas ao ponto em que o encontro contigo mesmo é medonho. És um sonho tonto com lábios de framboesa, mas sabor de medronho. Sem princesa e sozinho na mesa. Copo cheio, de mente presa. És algo sem algo, corpo de presa. Alguém que no verão espera que alguém lhe deixe, a lareira acesa. És algo sem algo.. És corpo de galgo.

Até quando vais ser aquilo que não queres ser? Quão longínqua é a tua vontade, o teu sentido de, quereres finalmente aparecer? Cheiras mas esqueceste de fechar os olhos, respiras mas, esqueceste de o fazer de olhos abertos. Respiras fundo mas não como fazias, não como sorrias. Não depois de uma gargalhada de apenas cinco segundos, que te cansa e te deixa a íris molhada. Não como agora, seca e incolor. Sem amor. Não como agora.

Deitaste fora e já não esperas que alguém te resolva, que alguém te devolva, o que jogaste ao ar. Que alguém saia das águas do mar e te dê um abraço molhado. Deitaste fora e já não esperas por ninguém. És só alguém, sem quem. Sem sem.



Até quando nesse ponto?

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Troubles, mind full of bubbles


E custa. Dói, saber de ti à justa. Dói ter-te pouco, abraçar-te à justa. Olhar para a cama e chamá-la de injusta. E custa, saber que não te tenho à minha custa.
Sou orgulhoso e sempre achei ter uma opinião clara, justa do que nos separa. Do que nos ampara, quando a distância aperta e custa.
Sabes o quanto me custa ver a tua fotografia no espelho? Que dia após dia me fazes sentir mais velho? Não sabes o preço disso… não imaginas quanto custa.
É por gostar que o suportar se torna menor. Não tem para onde crescer porque já conheço, já te sei de cor.


Mas podes descansar, só aleija, não custa assim tanto. É propício. Só custa ao início.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Fire.






Desafogo.

Um sufoco no nosso… próprio fogo.

Um coração a soco e uns ouvidos de moco,
Um pouco demais e um pouco de um muito pouco;

Um corpo louco. Uns lábios soltos mas de um cérebro rouco.
Soube a pouco. Sabe a pouco. Soube a um louco limite.

Pedi-te… Mas quem de nós o inflige?
Qual dos nós desenrolo? Qual dos olhos me feriste?

Para os lençóis rebolo, ferido, desta vez sozinho…
Tenho o colo gelado e encolhido, cobertor de espinho;

Detesto quando adivinho, detesto quando me ensino,
De criar um contrato quando só eu é que o assino.

Peço desculpa, eu sei, sou um assassino…
Fui um cretino quando o destino me avisou do desatino;

Feito felino não liguei, quis esticar o que era fino,
Quis a luz do holofote mas não passo de um figurino.

Desafogo, meu fogo. 

I'm out.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Orquestra - Partitura Nº1

Contagem infinita. São as vezes que pego nesta caneta. Nesta esferográfica, de simples concepção, não muito pesada nem muito leve. O suficiente para executar as suas técnicas de acrobata na minha mão, rodopiando de dedo para dedo executando o seu treino diário. Pergunto-me, por quanto mais tempo durará; quando secará. Quando se fartará, de mim e dos meus agoiros. Dos velórios que dou às frases quando elas me traem. Pergunto-me, quando estancará a nascente desta água vermelha que me mancha as folhas. Pergunto-me, se algum dia vai coagular. Se algum dia vou coagular.


- És tão sensual.
- Diz?
- A dançar, aqui comigo. És tão sensual. Mas vamos parar por aqui… Não estou a conseguir.
- Não estás a conseguir?
- Conter-me.


A ideologia reside na capacidade de explicar as misteriosas vibrações no peito. Em gravar as ténues imagens que nos invadem o cérebro, quando o corpo desliga a sua rede electrificada.
A promessa seria que a partir da promessa, seríamos imunes à febre. Ao súbito descontrolo hormonal. Que seríamos adultos o suficiente ao ponto de saber evitar os olhos. À fervura paralisante que o peito tende em libertar até às mãos e lábios. Morfina alucinógena.
(..)

segunda-feira, 31 de março de 2014

High Rated.


          Sabes ao que sentes? Àquele golo de ar seco que dás quando sentes que vais cair; quando o carro onde estás arranca tão rápido, que nem o teu próprio corpo consegue acompanhar esse brusco movimento. Essa ofusca tentação que te dá vontade de agarrar no coração e, massajá-lo para que se acalme. Tenho-te num patamar, onde nem os segredos mais secretos chegam a dormir.

          Onde não anoitece sem que me despeça de ti com um beijo na testa, como se esse ritual fosse apenas mais um segundo investido na minha serenidade. És-me isto…. Calma. És-me dias solarengos em pleno Inverno, és-me cada estrela no meu céu. És-me o que eu quero que tu sejas, essa história de começo inesperado onde te procuro e te encontro no mesmo lugar onde te conheci.

          E eu conheço-te onde me encontro. Onde me encontro a entrar-te. Onde nos encontro. Só peço à minha natureza, que não me mude. Que me mantenha nesta selva de tornados primaveris que me aquecem os pés. As pernas. A cintura. A barriga. O peito. Os braços. As mãos.

          Tenho-te num ponto onde nem eu próprio chegaria; tão alto, que me faz cócegas nos pés com vertigens. Olho para ti assim, de queixo subido e olhos cintilantes só porque numa certa altura na nossa a vida acontecem-nos as chegadas inesperadas. As cortesias pedidas. Os cúmplices olhares e os beijos quentes. As mãos… O entrelaçar de dedos que te gela cada centímetro de pele, como se fossemos apenas marionetas de madeira a seguir um guião. É nesse momento que sinto que mais importante que a temperatura é o súbito metamorfismo que me fazes sentir… De ser nenhum passei a ser alguém. Alguém que se habituou a gelar-te as mãos. A aquecer-te a alma. A manter-te vivo. Respiro-te.

          Não faço a mínima das ideias, porque nos deram quatro estações. Para mim só existe uma e é aquela em que as pessoas… Bem, é aquela em que nos sentimos quentes. Ofegantes. Impertinentes por não compreendermos porque é que o resto do mundo, não possa também funcionar assim. Penso que lhe falta mimos. Tive uma ideia: Que achas, se o mimássemos um bocadinho? Não tenhas receio; dá-me as mãos. Basta tirarmos uma luz desta nossa constelação, e emprestá-la ao resto do céu. Partilhemos o nosso, para que tudo o resto, ou todo o resto, possa também brilhar com a nossa estação. Emprestada, claro!

… Aceitas que eu te mime?

          Ao dizer-te que sim cairia na vulgaridade, arrisco um… Preciso que me mimes. Tocar-te é tocar em veludo. Perco-me cada vez que o faço. Deixo-me levar pela ingenuidade e, como uma criança a tocar numa tomada, toco-te… com aquele ar de inocência atrevida, aquela hesitação que nos faz ansiar o preciso momento em que, pele com pele, se fará magia. Debaixo de um céu estrelado, num Inverno aquecido pelo teu abraço. Fazes-me querer que me mimes. Que me guardes dos meus males. Que me protejas contra o remoinho que por vezes, nasce cá dentro. Que previnas que ele nasça. Que o elimines, para sempre. Que para sempre me fizesses sentir alguém, que ninguém se faz sentir. Que te implantasses em mim, com a tua impressão digital. Planta-me nos pulmões a semente do teu cheiro. Cuida dela e rega-a todos os dias, sem falta. Quando ela crescer, quero um filtro capaz de inalar e exalar a tua qualidade inconfundível. Apaixonar-me todos os dias? Não. Andar apaixonado.


          Deixo pendente a minha vida para que te possa encontrar. Em cada impressão digital tua rever o meu nome em traços pouco perceptíveis. Olhar para ti e ver-me difundida na tua íris. Não é o que queremos?! Eu quero a tua presença em mim como se tivesses nascido comigo. Procuro na minha infância, que nunca te conheceu, uma réstia de esperança e apenas encontro o anseio de te ter tido desde sempre… Podemos nascer de novo? Junta o teu vermelho com o meu. As tuas penas d’Ouro com as minhas. Os teus olhos flamejantes, com os meus. O teu corpo? Abafa-o no meu. Dá-me a tua asa direita que eu dou-te a minha esquerda. Agora fecha os olhos, abre o coração e inspira fundo. Não tenhas medo, minha pequena. “If you’re a bird, I’m a bird”. Somos Fénix.

Voamos?

          Pintemos o céu em tons pastel, grafemos o nosso nome e atiremos as memórias ao ar. Que ato mais genuíno nos fará sorrir da nossa loucura? Somos asas perdidas lá no alto, que numa simbiose autêntica tentam imitar a felicidade, sem saberem que na sua simplicidade são realmente felizes. Sorrio só de te ler. Mas até quando os dedos no lugar das aventuras? Quero poder aventurar-me ao teu lado, de olhos fechados saber o rumo que percorres. Seguir-te em cada trilho, decorar-te a cada passo. Sentir-te por perto. Voa para cá.

          Entretanto, vou já acendendo a lareira. Voa para o meu colo. Preciso mais do teu calor do que mero fogo. Do teu desafogo, é o que preciso. Que contradigas a minha vontade de te respirar pura, que de vez em quando me sufoques com a tua imensidão ilusionista, minha pianista de teclas de marfim, onde em mim tocas. Realista da minha extensa lista de sabores, e cores. Amores, surfista do meu rio encarnado. Alpinista das dores do meu muro de gelo, gelado, azulado. Sinceramente? Nasci no pólo errado.

          E é nesta melodia em que me encontro perdida, neste enredo de rimas que versas sobre os teus joelhos. Vem para cá. Traz-me um pouco dessa genialidade sem te esqueceres de trazeres contigo o carinho e o mimo de que preciso. Traz-te a ti, de corpo e alma. Aquece-me, com palavras e gestos… só porque um coração quente é nada quando ao lado dele não te encontra. Eu quero-te. Construir aqui, onde os sentimentos moram, algo bonito. Alertemos para a urgência desta necessidade que nos envolve em palavras, enquanto as acções são idealizadas no mais bonito dos meus sonhos… tu.
         

          Ai, tu… Tu que me dás graça quando acordas despenteada, ou pelo menos, como eu imagino que darás. Só com a minha T-shirt a tapar-te o tronco, até ao limite das tuas coxas. Dá uma voltinha, por mim. Não tiro este braço debaixo da cabeça, encostada à tua almofada, até que o faças. Isso… Agora sim, podes voltar para aqui. Se quiseres podes até dormir mais um bocado, eu faço-te o pequeno-almoço. E o almoço. E o lanche o jantar.


Ahm… Só mais uma coisa, antes de me vestir: Podes só abrir um espaço no teu armário? Afinal, mudo-me para cá.




Só porque escrever é magia.
Só porque és mágica,
Fénix.

Escrito em parceria com Liliana Malainho.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Riscos.





Ela entra em casa, sente o aroma,
Sabe que lá estiveste e sente o sintoma;

O hematoma no coração, aperta-o com frustração,
Porque é que lá estiveste sem lhe dizeres a razão?

“Esquecer e seguir em frente.” Tu fizeste mas ela não,
Embrulhou-se no teu cheiro e agora relembra a tentação;

A indignação de a teres deixado, e agora voltado;
Arrependida de não te ter espancado… tu que fingiste ter amado.

A culpa é tua, marcaste-lhe o corpo; a alma; a pele,
E ainda insatisfeito ainda lhe escreves um papel…

Ela leu mas não ligou, interpretou como lixo,
Deitou-se, mas não aguentou, levantou-se e foi ao lixo.

Fixou, paralisou, quando leu o teu capricho,
Admirou-se com o teu humanismo apesar de seres um bicho.


Mas não, não soltou qualquer lágrima, longe disso,
A mulher é forte e o seu forte é nem sequer pensar nisso.

domingo, 23 de março de 2014

Here.

O relógio apita; são 7h da manhã.

Esta manhã.
Desta inquietante manhã, fresca. 
Esta brisa gélida que me enruga os dedos e que me irrita a garganta. A pele. Os ossos. Os olhos. O peito. Esta brisa gélida gelada de ninguém, gelada de alguém. De cem encontros, de cem mesas e de cem cadeiras, sem ninguém. De cem jarras mas, sem rosas. Sem água cristalizada e tratada como o céu que por cima de nós acorda.

Como eu gostava que assim acordasses. Com um braço e uma perna em cima de mim. Com os cabelos a fazerem-me comichão no queixo. Como eu gostava de te ver… só com uma t-shirt minha.
Diz alguma coisa. Grita com toda a tua força e deixa que o vento te traga até aqui. Deixa-me sentar-te na cadeira vazia. Não, deixa-me sentar-te na mesa em cima deste caderno. Jogar a caneta ao chão e com as minhas duas mãos, fazer pressão nas tuas cochas. Quero a tua impressão corporal nestas folhas. Não, quero-a nas minhas mãos. Que desenrugues os dedos e confortes a garganta. A pele. Os ossos. Os olhos. O peito. O meu peito.

Desculpa, não te conheço e está a ficar frio.


Vou voltar para dentro. Adeus.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Prettyounglady.


Esgoto-me toda a vez, que não te encontro.
És fora da lucidez mas é fora da lucidez que te gosto, e pronto.

Procuro-te onde me imagino estar, e é lá que te acho,
A caminho da luz Solar onde o caminho é pouco baixo.

Onde eu me encaixo, com os braços na tua cintura,
Cabeça na barriga para adormecer sem postura.

És quem mais dura, quem mais conheço,
Quem melhor conheço de formosura e quem mais leio, e não me esqueço.

Por quem amanheço, virado para o Sol atrás da colina,
Por quem adormeço sem saber da Lua na neblina.


Minha menina… como eu te gosto.
Como eu aposto que só a mim te encostas,
Como eu desgosto quando em mim não apostas.

Minha menina… 
Como eu gosto quando te abraças às minhas costas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Veste-te, de ti.

A imensidão é imensa. Imensidade de uma dispensa que esvazia ao som do tique-taque, do relógio. De uma promessa de que se encheria, se completaria por quem me batesse à porta. Não qualquer quem mas o quem que melhor me fizesse, sentir bem. Sentir que também faz bem, ter vontade de preencher todas as prateleiras, desta minúscula dispensa. Sentir que ninguém é o quem que mais desejas, mais almejas ter.
Quero que me batas à porta. Que me dês a vontade de pegar na caneta, ou meter as mãos em cima deste teclado e sentir as teclas a serem pressionadas. A serem impressionadas, pela imensidão e o peso emocional que estes dedos carregam. Que esta pele respira.


Quero imenso ter-te como penso, desconhecida vida.

Quero saber da minha particularidade, em relação ao mundo. Desejo interiormente que todas as experiências sejam mais do que apenas sensoriais, neste meu ser particular. Neste meu ser único. Apela e agrada ao mais íntimo de mim ser consciente de como sou usado e ensinado a respirar, neste oxigénio. Talvez o pensar desta forma, particular, me ajude a solidificar a opinião com princípios básicos que recorrem a uma marionete biológica. Como se fossemos meros bonecos numa mesa de matraquilhos, ensinados a respirar. Chutamos a bola porque é esse o nosso instinto, fomos ensinados a repelir o perigo. Foi-nos esculturado o intuito de querer ganhar sempre, de ser até superior ao próximo, ao ser vivo da nossa própria espécie.
Debaixo do nosso tecto podemos ser quem somos. Mas o padrão, é sempre o mesmo. É sempre o mesmo, embora pensemos que somos todos seres únicos. Sujeitos únicos. Mas, o padrão é sempre o mesmo. É próprio de uma marionete. É uma particularidade.

Serei eu tão singular quanto a minha mais ínfima particularidade? 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Súbitos Tremelicos

Poderei eu adormecer em noites destas?
Frescas horas da madrugada, que me puxam para fora dos sonhos e que numa força de dez homens, tendem em me abrir as pálpebras. Só para que as minhas íris não se esqueçam de ti. Só para que eu, não me esqueça de ti.

Poderei eu adormecer em noites destas?
Frescos suores, que enchem os meus sonhos cheios de água. Que os inundam, que os inundam de ti. Que me deixam o corpo submerso com o teu cheiro, inconfundível. Que apenas os lábios deixam secos. Que apenas os lábios, deixas secos.


Poderei eu adormecer em noites destas?
Frescos tremelicos e súbitos despertar que me fazem procurar ansiosamente, pela caneta e caderno. Pelo abrigo onde me protejo toda a vez que me encontro. Toda a vez que te encontro.
Estes tremelicos e súbitos despertar gelados que me dão ânsias, na procura por ti. Na procura em ti, por mim.


Não consigo ser mais sincero quando te digo que adoro, o que tens em mim. Quando me procuras quando passo demasiado tempo, sem te contemplar. Sem te cortejar. Sem bocejar aquando as nossas conversas, nossos textos. Esse bocejar que ao invés de me dar sono, me gratifica por saber que ainda te tenho durante só mais um bocadinho, antes do beijinho de boa noite. Antes do beijinho na testa, como tu mereces.
Como tu gostas.
Como eu gosto. 

Ai, como eu te gosto..

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Doce ou Travessura?

Porque para ser honesto fico estupectado, cada vez que te vejo. Só alimenta o meu desejo, de te querer conquistar. Mas, de que serve o desejo quando a coisa mais simples, que é falar, tem tendência a encravar? Estranho, devo dizer, não querendo dar a entender que todas estas palavras são repetidas nas várias direcções, porque não sou de transmitir sensações a cada par de corações, a cada rabo com tacões.
A cada sorriso com o lábio trincado, a imaginarem posições.
Disso tive às paletes; puras ilusões.
Demasiadas desilusões para me aventurar noutra aventura.
Se o que planeio não dura, para quê ser cabeça dura?
Já chega, digo eu.
Estou cansado de me estender e esticar por quem não deu. 
Por quem não quer ser meu.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Restless Nights

Não sou fácil de gostar. Nunca fui. Hoje às 2h da madrugada vejo isso, melhor do que alguma vez pensei que visse. Do que alguma vez pensei que era. O irónico, pelo menos para mim, é eu estar sempre a fim de tudo. De querer fazer tudo e ir a todo lado, sem inventar desculpas. Queres que vá ter contigo? Não tenho boleia mas espera, eu arranjo. Se chamam a isto de ser alguém fácil, então perdoem-me. Desculpem por me esforçar e querer demonstrar que, quero estar presente em tudo. Principalmente na vida de quem eu gosto. Nas ocasiões mais e menos importantes, nas rotinas do café diário ou até num jantar a três quando o resto do grupo não pode. Perdoem-me. Perdoa-me, por estar constantemente na expectativa de receber uma mensagem tua, embora saiba que não o vais fazer.
O facto de me esticar para todo o lado, é mau. Mas, pior que isso é só reparar nisso agora, às 2h da madrugada. Nesta humidade que paira no quarto, que abraça o meu subconsciente aconchegadamente… Digam-me: Porque é que, para ultrapassar estes arrepios, sou obrigado a vestir casacos e a agasalhar-me? Nunca a minha mente esteve tão enrugada como agora, tão imunda e submersa de questões, como agora.
Digam-me: Para quê estes desgastes mentais? Porque é que temos que guardar num cofre, aquilo que mais prezamos? Pergunto-me, se estamos todos conectados como realmente dizem; se somos filhos da terra… Porque é que não podemos olhar para tudo, com muito mais intensidade?
Perdoem-me por vos pedir isto, mas por favor, leiam e tentem perceber as entrelinhas.

02:17h, marca o relógio.
Preenchi mais uma página de apenas mais um, dos cadernos. Farão algum dia alguma diferença? Quem vai ler isto para além de mim, agora?


02:19h, boa noite.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Imaginarium

       A noite desaparece, por fim. O dia amanhece e a luz do nascer do Sol irrompe pelo quarto a dentro. Rasga pela persiana e pelos cortinados, desenhando rectângulos na parede. Estranho, o despertador não tocou… Fui eu que me esqueci ou foi ele que se deixou dormir? Tenho que me levantar. Afasto o edredom, levanto-me em direcção à janela e puxo a persiana até ao topo. Chuva outra vez… Adoro estas manhãs.
       Voltei a sentar-me na cama. Passou mais uma noite e o cheiro continua nos lençóis. Até no próprio pijama que tinha vestido. Nem acredito que almocei e jantei no quarto. Se estivesse doente ainda me compreendia, mas por isto? Talvez esteja mesmo doente… Que estúpido.
Para mim era tão difícil como ensinar uma criança de três anos a cozinhar. Talvez a minha educação não tenha sido tão moderna como deveria ter sido. Ou talvez a minha habilidade de ‘seguir em frente’ precisasse de ser actualizada, novamente. Nunca compreendi o porquê de nós, humanos, possuirmos uma capacidade que se contradiz por natureza: conseguimos esquecer tão rápido quanto a duração de um simples duche, mas dois meses depois estamos colados à almofada, a devorar a tinta do tecto. Cheios de questões e arrependimentos, a fazer planos mentais de como poderíamos ter vivido de forma diferente, de como poderíamos ter aproveitado. É claro que com tudo isso deixa de existir espaço no nosso disco rígido, e como as coisas não tendem a melhorar, a nossa ‘reciclagem’ também deixa de poder armazenar.
Eu devia era de fazer uns abdominais, para ver se esta almofada desaparece… Mas e vontade? Vou mas é fazer umas torradas. Tentava sempre amenizar os meus pensamentos, preenchendo-os com alguma coisa que me mantivesse ocupado, mas era sempre missão falhada. Por mais que eu me quisesse distrair voltava sempre à imagem dela, ou ao som do seu riso histérico. Doce. Imaginário. Penso que te imagino, sabes? Gosto de me ver a imaginar-te; a criar momentos inesquecíveis em lugares paradisíacos, embora ainda não saiba se é deles que gostas.
Escrevo-te, sabes? Tenho escrito para ti regularmente. Tenho-o feito da parte de dentro da minha pele, mas tenho-o feito. Faço-o porque se houver defeito, ninguém poderá ver nem notar. Nem gozar. Nem apontar e criticar. Sabe bem escapar de tudo isso; de lutas verbais contra os críticos. Fazermo-nos de fortes por vezes cansa, e eu não te quero mostrar que sou forte. Quero-te mostrar que posso ser forte.
Sinceramente? Não sei. Não sei se na tua mente, me incluís no grupo dos “Homens da noite”. Se me imaginas a tentar engatar as “Mulheres da noite”, a oferecer-lhes bebidas e a dizer-lhes frases excitantes aos ouvidos. Com a mão na cintura delas e os lábios, nos lábios delas. Se me imaginas a escrever coisas bonitas a todas as que acho ‘interessantes’, a seduzi-las com poemas e textos amorosos.
Sinceramente? Não sei, se me imaginas de todo. Se chego alguma vez a passar pela tua mente, no teu dia-a-dia. O tempo é longo, não é curto como dizem. E eu gosto de olhar para ele com calma e serenidade. Gosto de lhe olhar e observar como gere o seu negócio. O meu por vezes vai à falência, e não são muitas em que há um balanço positivo. Não tendo a fazer demasiados investimentos, tenho receio que dê para o torto, ainda mais do que tem dado. Mas tem vezes, em que me dá vontade de vender tudo e arriscar no meu instinto. No entanto, não o faço. Fico sempre zangado comigo próprio por não o ter feito e a desilusão, aloja-se. Parece tão cliché, não é? Tão cliché como outrora era entregar flores. Onde o cortejo era nas festas, nos bailes. Homens de um lado, mulheres do outro. Levantava-se um homem e escolhia uma das mulheres, nenhuma recusava. Porque dançar era mais lindo e dava mais gozo do que meros estatutos ou aparências. Só depois é que vinham as flores, no “2º encontro”. Não te entrego flores porque acharias ridículo. Portanto, invés disso, escrevo-te. Estas letras são para ti. São as minhas rosas, para ti. Guarda-as com carinho. Deixa-as apanhar Sol e não te esqueças, de lhes dar água de vez em quando. Não as deixes murchar, porque afinal de contas, são parte de mim.
Gostaria de te imaginar a imaginar que sabes, sabias? Que nunca fui de eleições, de escolhas e selecções. Que sempre me dirigi com intenções de eleger o melhor, dos corações. Que de reflexões sou cheio e de decisão a decisões lá me divido, metade vontade metade bloqueio. Receio portanto, que seja isso que me condiciona. Não que a poltrona seja o meu sofá, ou a minha cama, mas quem fará com que um pijama comprado pela mamã se transforme, num smoking? Tornar-se-ia estranho e desconfortável, certo? Quase sempre me senti assim, numa dúvida. Num nada.
“Nada…”. Tudo de nada, tudo da palavra nada. Letras de empreitada sem sabor algum, sem caldo ou tempero. Visto de fora, é comum. Nunca fui número um e isso é visível à distância de planetas. É como o pão: cortamos sempre uma fatia a mais em caso de futura vontade, que na maioria das vezes volta para dentro do saco transparente. Sabemos que dura mais uns dias, é por isso que o fazemos. É por isso que me divido sempre mais um bocado. Mas não é pelo domínio da ingenuidade, é pela esperança de que alguém entre na cozinha, olhe para o saco, repare na fatia e lhe dê vontade de a comer com nutella. Gulosice de restos, é o termo.
Oh, merda… Estás a ver o que me fazes? Queria ditar-te algo e começo por falar em pão e nutella… Parecido, suponho. Mas bem, meu bem, sei que também tens cem palavras para mim, não é? Então, levanta o pé e pousa-o mais à frente. Levanta o esquerdo e pousa-o à frente do direito. Repete com o direito. Repete com o esquerdo. Caminha em frente, para a minha frente. Deixa-me olhar para ti enquanto isso, és tão elegante. Adoro o teu movimento. Adoro ver-te caminhar. Misturas-te com o vento e com o meu olhar. Quando sorris não há sorriso que se contenha em mim, posso afirmá-lo enquanto por fim me dás os lábios. Sabes a doce, a guloseima. Sabes a nutella, minha bela. E queima, quando entre o pó sou forçado a escrever-te em vez de te o dizer, frente a frente. Nariz a nariz, minha esquimó.

Bem, tudo para isto dizer que sim, vou às festas todas onde me queres presente. Vou onde tu quiseres, noite atrás de noite. Mas por favor (se não for pedir muito, claro), deixa-me ir com o pijama vestido por baixo e de chinelos calçados. Prometo cortar as unhas.



Mas bem, meu bem, sei que também tens cem palavras para mim, não é?


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sou? Serei ser.


Sou quem, que sem não vive, quem não teve. Quem não tive, que ontem teve e que hoje, sem não vive.
Sou quem o ontem começou a primeira página.
Sou quem, o hoje, rasga o livro.
Sou quem o amanhã dá uma chapada de luva branca. Quem vive sem o que nunca, na verdade tive. Quem teve, como te teve, de pálpebras fechadas.
Sou quem das madrugadas fez companhia, altas horas todas contadas, contempladas e transformadas em abafadas contemplações; transformações paranormais de normais paixões, agitadas hormonas, em naturais tremelicos literários.
Confusos horários.
Confusos passos primários.
Confusas interrogações, fazendo os meus olhos otários, de que se foi realmente, o mais correcto.
Sou quem partiste o tecto. Quem perdeu o afecto com o afecto pegajoso, no teu tecto.


Sou quem não chegou a ter o teu afecto.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Down on my knees

Não posso. Não posso fechar as comportas deste gigante pulmão, que te inspira. Não posso. Não posso vestir a armadura de novo e dizer ao meu subconsciente, que não se passou nada; que não se passa nada. Não posso, não quero. Não o vou fazer e quero que saibas disso. Quero que saibas que estou a tentar ser preciso, na escolha que estou a tomar. Sei eu e sabes tu, que vai ficar difícil. Mas e daí? O que é fácil não apetece a ninguém mas isto, não é uma questão de apetecer ou simplesmente querer lutar contra a maré, só por ser difícil. Honestamente, tenho a plena noção de que se me ajoelhar para te beijar os joelhos, irei acabar agarrado às tuas pernas. A levantar-te no ar, só para que sintas que estás mais alta do que eu. A verdade é que estás. A verdade, é que estás…



Eu estou aqui, e tu? Estás aí?