terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Noite Fria




A noite já vai longa,
E eu, faço-lhe companhia ao relento.
A minha escrita já se prolonga,
À medida que sopra o vento.

Leves brisas suspiram,
Sossegam-me o coração;
Os meus pulmões já inspiram
E expiram inspiração.

Ao meu colo estão folhas finas,
Brancas e sem requinte;
Anseiam pelas minhas rimas,
Anseiam que eu as pinte.

E como um campo de flores,
As ondas vão desabrochando..
Vão soltando os seus sabores,
Nestas folhas, flutuando.

Pestanejo. Contemplo
Um desejo no horizonte.
Desenho uma ponte com exemplo
Das águas da minha fonte.

Mas sem respeito,
A noite tirou-me a caneta;
Proibíu o meu deleito
Em rimar o meu planeta.

Não se ficou. Impertinente,
Tirou-me também o caderno..
Proclamava que aquele quente
A libertaria de seu Inverno;

Desenrolou-o e docemente,
Parecia que cantava uma melodia..
Querida e eloquente,
Ia transformando a noite em dia..

Fez magia diante de mim,
E diante dela me curvei;
Prometeu ao frio dar fim,
E olhos nos olhos, a contemplei. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Bloco de Notas







Por entre as rimas,
Revelo segredos roucos;
Aos poucos, engordo as finas
Folhas de cadernos loucos.

Deposito verdades, vontades,
Prazeres dos meus sonhos.
Deposito manhãs, tardes,
Gritos do peito medonhos.

Enfadonhos encontros,
Aqueles que tenho comigo...
Duras visões, duros contos,
Discussões com o meu umbigo.

Tive reais contemplações,
Nos passados passados.
Em simultâneo, presentes lições
Em tempos mal conjugados.

Convulsões sentimentais,
Surreais desilusões...
Emoções paranormais
De irreais ilusões.

Em mim são memórias,
No caderno, lembranças.
Mas ambos, expiramos histórias
De frequentes mudanças.

Vivo mas pressinto,
Que um labirinto me esconde;
Falo com o que sinto,
Mas ele nem me responde;

Ego demasiado alto,
Para dizer seja o que for,
Mas sentimento em sobressalto
Não passa de escritor.

Tem que ser cantor,
Se quiser ser sentido;
Jà não basta escrever amor
Nos diários do ouvido.



Todos nós somos iguais/diferentes,
Cada um com o seu problema.
Já o meu, são os medos frequentes
Que me criam um dilema:

Um dilema que esfria,
Que escurece o meu planeta;
É o receio que um dia
Se acabe a tinta, desta caneta.

domingo, 20 de novembro de 2011

Vagueios


Dias. Acumulam-se dias atrás de dias, sem tinta alguma aproveitada. Textos atrás de textos que escrevo nesta minha mente, que no dia a seguir, se contradizem por completo. Suponho que tenha escrito por toda a minha cara, pontos de interrogação. Talvez seja por isso que me dói tanto olhar ao espelho. Talvez seja por isso, que me custa imenso olhar para dentro de mim. Os órgãos vitais que me comandam, aqueles que falam com a minha consciência, estão neste momento, em completa dessincronização. O de cor vermelha, emana uma vontade tremenda em partilhar uma paixão que já transborda fora do pote. No lado oposto tenho o de cor cinzenta, que quase que me obriga a procurar aquela pessoa que denomino como perfeita para mim. Se eu ao menos ainda soubesse onde ela eventualmente poderia estar, talvez este meu coração acalmasse.
Tento ao máximo, dar tudo de mim a todos os que me rodeiam. Tento manter contacto com todos, mesmo com aqueles que chego a não falar durante semanas. Tento fazer transparecer que está tudo bem, quando na minha realidade não está. Chego a dar por mim a escrever coisas no caderno que nem sei o porquê, de as ter escrito. Rasgo a folha e fico a olhar para a seguinte, a pensar o que vou escrever. Aproximo a caneta da folha quando mais uma vez, dou por mim a fazer o que realmente não quero.
Sempre me disse a mim próprio que queria viver uma vida diferente, ir para outro país e começar algo que nunca antes comecei. Ser um completo desconhecido de todos, e pouco a pouco ir conhecendo-os aqui e ali. Tenho a certeza que se o fizesse, iria encontrar o que me falta. Talvez aí, o número de folhas rasgadas diminuísse. Talvez aí, já não fosse preciso baixar o volume da música para conseguir ouvir os meus pensamentos. Talvez aí conseguisse ouvir os meus pensamentos na minha própria música, ou por outro lado, os conseguisse ouvir noutra pessoa.

domingo, 4 de setembro de 2011

Rhymes

Hoje em dia, é difícil criar algo novo,
É difícil agradar aos gostos do nosso povo;
Já está tudo feito, praticamente tudo inventado,
Inteligentemente pensado para que já nada seja criado.
Evoluímos à velocidade do som, sem pensar nas consequências,
E hoje vivemos entre um povo que já só vive de aparências.
Cheios de dependências: sufocam sem o habitual perfume;
Se não há dinheiro, pedem emprestado para beber o chá do costume.
É uma vergonha, não sei como é que somos assim,
Sei é que há muitos que desejavam os restos no fim.
E nós aqui, a viver à grande e à portuguesa,
A trocar valores essenciais por produtos de beleza.
Mas bem, não me serve de nada estar a criticar a multidão,
Não vou ter ganhos extra a não ser um bom serão;
Diverto-me a ver, mas também luto pelo impossível,
E às vezes nem suando conseguimos subir de nível.
Sou sincero: vejo-me preso nesta cave,
Enquanto uns vivem no topo, eu nem da cave tenho chave.
Tento ser criativo, mas o mundo já tem demasiado,
Está repleto de parvos que cantam um fado que nem é fado.
É complicado, navegar afastados do naufrágio,
Pois escrevemos uma rima e já afirmam que é plágio..
Mas que se lixe, se é para viver, então que se viva,
Tratem a vida como queiram, mas não como uma diva..

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Metáforas


Um caderno, folhas em branco e uma caneta. Um calendário sem marcações, sem deveres nem obrigações. Ar livre e por fim, alguém que me faça pegar numa caneta. Alguém que me faça abrir um caderno e, na folha certa, me faça escrever o que nunca antes escrevi. Isto, é tudo o que peço, é tudo o que sempre irei pedir.
Tenho pena de ter perdido tanto tempo, de olhos fechados e mudos, e de ouvidos cerrados e surdos. De todos os dias, ter que descer à minha cave para alimentar um desejo, que afinal, só precisava que lhe abrissem as janelas e que o deixassem respirar. Tenho pena, de não ter arejado a casa mais cedo. Mas claro, não vale de nada apenas fechar o passado dentro de um armário, a sala onde ele se encontra também tem que ser selada. E quando as saudades exigirem visitarem essa sala, talvez seja melhor entrar lá dentro com aqueles fatos especiais, não vá o passado querer outro abraço.
Não escondo que passei muito tempo fechado dentro desta minha residência. De portas trancadas e de cortinas fechadas, para que ninguém me pudesse ver. Com tudo desarrumado e espalhado por toda a parte, como se a vontade nunca tivesse vivido comigo. Mas o sítio mais desarrumado de todos, tirando o quarto, era o sótão, sempre foi. Esse meu velho lugar, estava repleto de tralha até ao topo, cheio de coisas insignificantes. Mas a paciência era escassa, e eu em vez de a tentar recuperar, troquei-a por descanso. Troquei-a por horas de volta dos meus velhos cadernos, sentado numa poltrona, que acabou por adquirir a forma do meu corpo.
Escrevi e escrevi. Escrevi sobre tudo, praticamente tudo. Sobre a vida, sobre a morte, sobre as pessoas, os animais, sobre a terra e sobre o mar. Até sobre as almofadas, essas que independentemente do que se passava, sempre se mantiveram fiéis, prontas para me amparar. Mas para além de escrever horas a fio, para além de tentar reflectir sobre tudo, a ambição de evoluir a escrita também existiu, e ainda existe, como é óbvio. E pessoalmente.. acho que não evoluí coisa nenhuma.
Depois de tanto tentar escrever com primor,
Ainda me acho principiante, um aspirante a amador.
Tento evoluir, superar e subir de patamar,
Mas nem o rés-do-chão sinto ultrapassar.
Talvez esteja,
A ser modesto em demasia,
Ou talvez seja,
A ser mais parvo do que devia.
Mas suposições, é o que tenho em maioria,
Deitam-se comigo e acompanham-me todo o dia.

Mas sabes o que te digo, meu velho caderno ? Não desistas, que eu também não. Com certeza vai aparecer alguém que sirva de ambi-pur para esta velha casa. E que bem que está a precisar, não achas ?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Paris.


Quem me dera, puder saber desenhar,
Transformar uma cidade do tamanho de um polegar.
Mas a Cidade da Luz, é algo diferente,
É algo de misturas, é algo fria, algo quente.
Não literalmente, mas uma metáfora que não é para toda a gente.
Eloquente, presente e com história,
E tem um jeito único, que seduz a memória;
Detalhada, versátil, grande e maravilhosa,
Com tons em cinzento e com um aroma a rosa;
Escrita em prosa, é uma verdadeira artista,
Arrepia-me e apela à minha veia de liricista.
Viro alpinista, cada vez que a inspiro,
Nascem-me sonhos que, de seguida, fogem num suspiro.
Novamente, inspiro, expiro,
E lentamente respiro, despejando o suspiro neste caderno de papiro.